• Larissa Bittar

Análise de “Branca de Neve”





De acordo com Silva (2016), o conto de fada da Branca de Neve assim como outros contos onde o protagonista é uma personagem feminina, possuem características comuns, principalmente o fato da mulher principal estar destinada a cumprir afazeres domésticos e também não possuir liberdade de escolha na sua própria vida, pois são consideradas frágeis, passivas e dependentes de um homem. O príncipe é um elemento presente nessas histórias, eles não possuem nem um nome, pois o importante é existir

apenas a figura masculina:


Elas são princesas passivas e belas que esperam por um príncipe para salvá-las. Os desejam antes mesmo de aparecerem fisicamente, pois sonham com eles. Revelando assim, que as mulheres precisam de uma figura masculina para serem felizes e se tornarem sujeitos legitimados (SILVA, 2016, p.61).


Conforme Silva (2016) em Branca de Neve é nítido a rivalidade feminina na história, que se desenvolve a partir da inveja, inimizade e competição das duas mulheres. Nesse conto é inexistente outras figuras femininas, os outros papéis são representados por figuras masculinas, como o caçador e os sete anões assim como os animais da floresta.

Bettelheim (2015), afirma que a presença das madrastas nos contos de fadas possui um papel ideológico no qual é a substituta da mãe e uma personagem contrária à felicidade das suas enteadas. Para o autor, o aparecimento dela como substituta constante da genitora, frequentemente evoca um papel de rival, outras vezes de perversa, mas sempre destinada a educar pela dor a enteada que ficou sob seus cuidados

após o casamento com o pai que pode ser descrito como excluído.


Ao ler os contos de fadas, o leitor tem um entendimento a respeito do papel de mãe, se diferenciando totalmente do papel esperado da madrasta. De acordo com Bettelheim (2015), a mãe é aquela que cuida, que oferece carinho e está sempre ao lado do filho. Já a madrasta é representada como a figura que se apoderou do lugar da mãe, aquela que explora a criança nas tarefas domésticas, a invejosa que quer se livrar da enteada, com o intuito de apenas ela ficar com o pai e com os bens que ele possui.

Para o autor citado acima, nos contos de fadas há uma divisão típica entre as personagens: a mãe boa, que normalmente já está morta; e, uma madrasta malvada ocupante deste lugar. A divisão entre “mãe boa” e “madrasta má” é importante para a criança, pois possibilita que a mesma preserve internamente a imagem de mãe boa, quando na verdade não é inteiramente boa, pois também possui defeitos, mas isso faz

com que a criança crie raiva da “madrasta” malvada, que pode ser uma criação fictícia

da mesma para não danificar a imagem de bondade da mãe verdadeira e assim, ela

enfrentar como uma pessoa diferente.

Bettelheim (2015) descreve que de acordo com a nossa sociedade e cultura, a figura da madrasta é vista como aquela que ocupa o lugar da mãe, desocupado por diferentes motivos: seja pela sua morte, pelo abandono ou por um novo casamento do pai, após a separação. A partir dos contos de fadas, a madrasta passou a ter um outro significado ideológico, a vilã da criança, que por algum motivo foi privada da presença

da mãe.

De acordo com o conto de fadas “Branca de Neve”, na versão dos irmãos Grimm: A trama tem início com o desejo da rainha-mãe em ter uma filha.

Num dia de inverno, quando bordava, a rainha furou o dedo e algumas gotas de seu sangue caíram na neve que estava no caixilho da janela de ébano. Naquele momento, a rainha desejou: Quem me dera ter uma filha branca como a neve, vermelha como o sangue e negra como o caixilho da janela (COLUCCI; FONOFF, 2008, p. 5).


A história começa com o desejo de uma mãe em ter uma filha, esta mãe idealizou como gostaria que a filha fosse e seu desejo se concretizou. Para Bettelheim (2015) a parte que a mãe espeta o dedo e o sangue cai sobre a neve sugere os problemas que a história busca abordar: a inocência sexual (neve branca) contrastando com o desejo sexual (sangue vermelho).


Segundo o autor, o começo do conto de fada é marcado por um aspecto idílico, no qual uma criança nasce em uma linda família, cercada de amor e no qual todos os seus desejos são realizados, mas logo após o nascimento da menina, a rainha-mãe-boa desaparece e surge a mãe-madrasta-má. Para concluir esse ciclo, um tempo depois a senhora adoeceu e deixou sua filha órfã e seu marido viúvo.

A trama se desenvolve com a garota sob a guarda e as garras da mãe-má, representada pela madrasta: “Após um grande período de luto, o rei casa-se novamente, porém a nova mulher é tão bela quanto perversa.” Corso (2006 apud Colucci; Fonoff, 2008, p.5).

Conforme escrito por Silva (2016) todo dia a vaidosa rainha consultava seu espelho mágico para saber quem era a mais bela do reino. Quando o espelho respondeu que era a Branca de Neve, a madrasta envolvida pelo ciúme e a inveja ordenou a um caçador que matasse a enteada. É retratada nessa famosa cena, a violência de uma mulher contra a outra, onde nenhuma mulher pode empoderar a outra. Bettelheim (2015) escreve que o espelho mágico possui um papel interessante, pois ele parece falar com a voz de uma filha e não com a de uma mãe: Como a menina pequena acha que a mãe é a pessoa mais bela do mundo, é isso que o espelho inicialmente diz à rainha. Mas como a menina mais velha se acha muito mais bela do que a mãe, é isso que o espelho diz mais adiante (BETTELHEIM, 2015, p.288)


Segundo o autor citado acima, apesar de ter sido dito que sua mãe morreu e foi substituída por uma madrasta, não aconteceu nada a Branca de Neve durante seus primeiros sete anos, só após esse tempo, quando a menina começa a amadurecer e se desenvolver. Isso só acontece porque enquanto criança, Branca de Neve não desperta ódio de sua madrasta invejosa, só após crescer e se tornar sexualmente atraente.

[...] O narcisismo da madrasta é demonstrado pela busca de confirmação de sua beleza junto ao espelho mágico muito antes de que a beleza de Branca de Neve eclipse a sua. [...] O genitor narcisista é aquele que se sente mais ameaçado pelo crescimento de seu filho, pois isso significa que ele, genitor, deve estar envelhecendo. Enquanto a criança é totalmente dependente, ela como que continua sendo parte do genitor; não ameaça o narcisismo deste. Mas quando começa a amadurecer e buscar a independência, passa a ser vista como uma ameaça por um tal genitor, como sucede com a rainha em “Branca de Neve (BETTELHEIM, 2015, p. 282-283).


De acordo com os autores Colucci e Fonoff (2008), toda a trama se desenvolve com a explicita rivalidade entre Branca de Neve e a madrasta-mãe-má por conta da beleza. A mãe/madrasta idealizou a beleza da filha/enteada sem ter aprendido a lidar com seus conflitos do Complexo de Édipo, fazendo assim com que houvesse uma grande competição entre elas.

Para Bettelheim (2016) a rainha que está fixada no narcisismo primário e retida no estágio oral, não ordena apenas que mate a menina, mas que também traga para ela seus pulmões e fígado como prova, para ela comer no jantar. Sobre o ato de comer os supostos órgãos da sua enteada, a rainha invejosa deseja a partir disso incorporar o encanto de Branca de Neve, pois de acordo com costumes primitivos, uma pessoa adquire poderes e características daquilo que come.

O caçador não tem coragem de ter tal atitude, caça um animal, mais precisamente uma corça, como prova que executou a sua ordem e deixa a moça fugir. A jovem foge pela floresta e encontra a casa dos sete anões. A rainha descobre que ela está viva e faz planos para matar Branca de Neve.

Para o autor, o caçador é um personagem que representa a figura paterna forte e protetora que entra em oposição com os pais ineficientes da história. Nos seus sonhos e devaneios a criança é perseguida e ameaçada por animais selvagens ferozes que são criações de seus medos e culpas e somente o pai-caçador pode espantar esse medo. Ou seja, o papel do caçador nos contos de fadas não tem como objetivo ser aquele que mata criaturas ameaçadoras e sim aquele que domina e controla os animais selvagens, representando assim, as tendências animais, antissociais e violentas do homem.

No entanto, ainda segundo Bettelheim (2016) o caçador ou guarda em Branca de Neve possui um papel diferente. O pai-caçador não é capaz de tomar uma posição forte nesse conto, não cumpre seu dever com a rainha e nem sua obrigação moral com Branca de Neve de protegê-la: Não a mata imediatamente, mas a abandona na floresta, esperando que seja morta pelos animais ferozes. O caçador busca aplacar tanto a mãe, ao fingir que executa sua ordem, quanto a menina, ao simplesmente não matá-la (BETTELHEIM, 2016, p.287).


Os anões, segundo o autor, sugerem uma existência pré-edipiana. Não são homens em nenhum sentido sexual e demostram interesse apenas em bens materiais com a exclusão do amor, estão satisfeitos com seu modo de vida que é um círculo de imutável trabalho no interior da terra. Essa ausência de mudança é o que os tornam

semelhantes com a criança pré-púbere.

Bettelheim (2015) descreve a maçã como algo que representa o amor e o sexo, entretanto representa mais precisamente nesse conto o que a mãe e filha possuem em comum, algo que é ainda mais profundo do que o ciúmes entre elas: seus desejos sexuais maduros. A natureza dupla morde a parte vermelha da maçã: “ela era branca como a neve e vermelha como o sangue”, ou seja, seu aspecto assexuado e seu aspecto erótico, respectivamente. Sobre esses episódios, o autor explica: Quase destruída pelos conflitos do início da puberdade e pela competição com a madrasta, Branca de Neve tenta escapar de volta a um período de latência livre de conflitos, em que o sexo se mantém adormecido e consequentemente as perturbações da adolescência podem ser evitadas [...] Quando Branca de Neve se torna uma adolescente, começa a experimentar os desejos sexuais que estavam recalcados e adormecidos durante a latência. Com isso, a madrasta, que representa os elementos conscientemente negados no conflito íntimo de Branca de Neve, ressurge em cena e lhe destrói a paz interior (BETTELHEIM. 2015, p.293)


Para Bettelheim (2015), os heróis de contos de fadas, em um ponto crucial de seu desenvolvimento, caem em um sono profundo. Isso simboliza que a cada despertar, conquista um estado mais elevado de maturidade e compreensão. É um dos modos do conto de fadas estimular o desejo de um significado, uma consciência mais profunda e um maior autoconhecimento. O autor afirma que o narcisismo é importante para o desenvolvimento da criança e a história da Branca de Neve serve de alerta sobre as consequências que ele pode trazer tanto para os pais como para a criança: O narcisismo de Branca de Neve quase a destrói quando ela cede por

duas vezes às seduções da rainha camuflada para fazê-la parecer mais bela, enquanto que a rainha é destruída por seu próprio narcisismo (BETTELHEIM, 2015, p.283).


A história também mostra que para alcançarmos a maturidade física não é necessário estar preparado intelectualmente e emocionalmente para a fase adulta, evidenciando o desenvolvimento e o tempo como necessários para se formar uma nova personalidade mais amadurecida, de uma forma que os antigos conflitos sejam integrados. Essa não é a primeira história a respeito do ciúme que uma mãe sente da sexualidade nascente da filha, nem é tão raro assim que uma filha acuse mentalmente a mãe de tal ciúme.


[...] Uma mãe pode ficar desalentada ao olhar no espelho; ela se compara à filha e pensa: “Minha filha é mais bela do que eu” Mas o espelho diz: “Ela é mil vezes mais bela!” – uma afirmação muito mais afim a um exagero de adolescente, que este faz para aumentar suas vantagens e silenciar sua voz interior de dúvida (BETTELHEIM, 2015, p.288).


Conforme escrito por Colucci e Fonoff (2008), a trama possui um desenvolvimento a partir da rivalidade existente entre Branca de Neve e a Rainha/Madrasta, onde a protagonista assume uma posição inocente e ingênua, enquanto a madrasta assume um papel oposto. A rivalidade entre as duas ocorre devido a disputa pela beleza, pois a mãe/madrasta está tomada pelo seu narcisismo, passando a idealizar a beleza da filha/enteada sem dar suporte aos seus conflitos edípicos. A rivalidade entre as duas, quando se estabelece uma relação difícil, é facilitada pela ausência de um afeto amoroso entre elas e pela disputa da figura do pai/marido. Aquilo que desencadearia culpa, como ocorre na relação mãe e filha, em que as

hostilidades ficam inconscientes e os sentimentos ambivalentes, sem a predominância do ódio e da rivalidade, na relação madrasta/enteada ambos os lados se sentem mais desimpedidos para sentir as hostilidades sem a predominância de culpa.